por Marcio Doti, editor de jornalismo da Rede Itatiaia de Rádio, em 13/06/2002
A copa do nosso mundo não é essa, disputada no Japão e na Coréia*. A copa do nosso mundo será disputada em outubro, em verdade será decidida em outubro quando milhões de eleitores vão depositar, nas urnas os nomes daqueles que estão em campo há muito tempo, jogando bola de todo jeito. Alguns com classe, com empenho, com garra, outros especializados em bola nas costas, ainda outros que são fantoches de cartolas, enfim, gente de todo tipo querendo o voto de gente de todo tipo, o que produz resultados rigorosamente assim, de todo tipo...
A copa do nosso mundo, lamentavelmente, não produz nem de longe o interesse da copa disputada nos distantes gramados do Oriente. Mesmo considerando jogo de madrugada, durante a semana, 6 horas da manhã, 8 e meia, enfim, num horário que tirou muito da graça da maioria dos continentes apaixonados pelo jogo da bola, mesmo assim, quem dera que a copa das eleições tivesse pelo menos 10 por cento do interesse que a outra desperta.
Do mundial da bola o cidadão torcedor tem muito do que dizer. Sabe os juizes que vão mal, que interferem no resultado do jogo com seus erros. Reconhece rapidamente os craques, diz a escalação dos times, conta a vida dos jogadores, aprende a falar nomes complicados, enfim, rapidamente domina o quadro, o assunto e vai para as esquinas discutir quem é o melhor, quais as chances do Brasil, quem pode ser o ganhador, qual será o mais sério adversário. O interesse patrocina isso. Só o interesse garante esse desempenho, faz de cada um aquele técnico abalizado e competente.
Pois é justamente a falta interesse que transforma o eloqüente, competente e entusiasmado cidadão torcedor no apático, desinteressado e despreparado cidadão eleitor, incapaz de entender as jogadas, conhecer os maus juizes, identificar os jogadores bichados, vislumbrar rapidamente os craques, aqueles rapazes de marcar os gols do progresso, do desenvolvimento e da justiça social.
Em nome de um certo nojo da política, produto de escândalos que desfilam toda hora, o cidadão eleitor afasta-se das arquibancadas, deixa a geral, fica distante, não acompanha, não tenta entender, não quer ver o jogo. E porque não entende, na hora em que é chamado a escalar o seu time, escala mal. E porque escala mal, tem novas decepções, tem que engolir o seu grito de gol.
Um dia, quem sabe, vai ser diferente... O cidadão torcedor e o cidadão eleitor serão a mesma pessoa, nas duas copas.
* Esse texto foi escrito durante a Copa do Mundo de Futebol do ano de 2002, realizada no continente asiático.
Postado por Lucas Ribeiro às 13:20
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