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por Walter Takemoto

A partir dos 8 anos (isso quer dizer quase 44 anos atrás!) saí da Vila Mariana e fui morar lá no Alto da Vila Maria, quebrada da zona norte de São Paulo, de ruas de barro e casas pobres e cortiços, quase todas ocupadas por nordestinos e negros. Tive lá os meus primeiros amigos de jogar bola na terra batida e pés descalços, de nadar nas lagoas das águas do rio Tietê, de pegar rãs nos brejos, de jogar bilhar e pebolim. Foi lá também que fui vender sorvete nas ruas, fazer carreto nas feiras, carregar tijolos nas obras.

E a grande façanha foi ser lateral direito no Arsenal F.C. com 13 ou 14 anos, no meio de um monte de homens. Todos os domingos saía o time de várzea no ônibus lotado, em direção a uma outra vila qualquer, pobre do mesmo jeito; uns bebiam a cachaça direto no gargalo, outros fumavam o bagulho de todo dia, enquanto o surdo comia solto. Era a diversão de todos e a paixão de outros, como do roupeiro, que não jogava, mas tava lá, distribuindo e recolhendo as camisas gastas, sujas e fedidas de suor. E tinha os que torciam e que, na falta de rojão, comemoravam dando tiros pro alto, pois que o instrumento de trabalho estava sempre lá, na cinta e ao alcance da mão.

Entre esses tinha o Ceará, bicheiro, que virou lenda por trocar tiros sozinho com a quadrilha do Zezinho da Vila Maria ( bem em frente à casa em que eu morava), uns três ou quatro, e levou tiros na perna, no braço e na barriga e saiu andando sem ajuda de ninguém e pôs todos pra correr com um revolver em cada mão. E continuou dono da banca, enquanto que o Zezinho, por ironia do destino, morreria um tempo depois cheio de balas no estacionamento que fizeram na casa em que eu tinha nascido lá na Liberdade!

E jogava e andava nas quebradas comigo o Jafra, negão de seus 1,80 metro, bonito e forte como um touro, com seus 17 anos. O Jafra tinha o sorriso largo e bonito e era meu chegado do peito e de fé. De vez em quando, eu, lá com meus 15 anos, treinava boxe com ele. Certo dia, o Jafra saiu no braço, ninguém sabe muito bem por que, com o Tonhão, dono de boca de fumo, e não deu outra. O Tonhão apanhou feio. E o que destrói a história de qualquer dono de boca é correr a história de que apanhou de um moleque e ficou por isso mesmo. Dias depois, o Jafra morreu na ponta da faca do Tonhão. E o Tonhão, tempos depois, morreu na cadeia de Aids.

Periferia? Não, “periferida”

Como o Jafra, muitos morreram ou foram para a cadeia ou se acabaram na bebida e nas drogas. Baianinho, Vilson, Samuca, Boca de Sapo, Ari e todos os outros que morreram na memória. Lá naquelas ruas de barro vermelho aprendi o que é viver na “periferida”, os códigos que dão significado a um mundo que é regido por outros parâmetros de convívio e sobrevivência. E isso tudo é pra que mesmo?

É pra dizer que a ida do MV Bill lá na Daslu não me sai da cabeça!

MV Bill, parafraseando (acho que é esse o termo) o velho compositor baiano, como “quase todos os pretos e quase todos os pobres”, nasceu lá em uma quebrada do Deus me livre, onde as coisas são o que são, para os que não são nem pretos e nem pobres. Por alguma razão que desconheço, talvez a música quem sabe, o MV Bill, tal qual o Mano Brown, ou o outro Brown que o Mano esculhambou na MTV, o seu Jorge, o Robinho, ou qualquer outro preto e pobre, teve um atalho na estrada do destino de todos os outros tão iguais que morrem como o Jafra, de morte matada, ou como o Tonhão, de morte morrida na cela de uma cadeia, ou dos esquecidos que morrem e não sabem e teimam em continuar fingindo que estão vivos por aí afora.

E o MV Bill se tornou um rapper. E o MV Bill virou líder da comunidade dos quase todos pretos e quase todos pobres. E o MV Bill resolveu filmar e escrever sobre todos os outros que não encontraram o atalho de saída por algum lugar da estrada do destino de todos eles. E o filme é tão frio, tão seco, tão feio e tão nada, como é a vida de todos que lá estão. E onde é que ficam a alegria, a camaradagem, a solidariedade e tudo mais que sobrevive nas vilas e favelas?

Tudo muito bem, tudo muito bom. Bater laje, comer feijoada e tocar pagode no fim de semana é o que há. O mutirão pra autoconstrução barateia levantar o barraco ou o puxadinho. Dividir o quilo disso e daquilo demonstra o quanto a miséria forja laços de solidariedade e provoca o que de melhor pode a generosidade humana. Que os anjos digam amém!

Mas não é da alegria nascida da miséria que nós, brancos e não pobres, falamos durante anos a fio, ou, como já falaram, não é o pão e o circo que pretendíamos fosse o destino da humanidade.

O atalho salvador e consolador

É ótimo oferecer esporte, capoeira, dança afro, percussão, e coisas do tipo pros meninos e pras meninas dos morros e favelas. É lindo vê-los lá, praticando e sonhando um dia subir num palco e se apresentar pros quase todos brancos, todos intelectuais, todos emocionados, por verem os pretos e pobres que arrumaram um atalho que os tirou das drogas e do crime que apavora os brancos e ricos. Que sucesso é ver uns poucos se safarem, pelo menos não precisamos mais sentir a culpa pelos outros muitos que estão lá, no caminho que lhes reservamos!

O que acontece na vida real é que viramos as costas pra periferida, que purga dia após dia. Qual foi o governo que assumiu a responsabilidade política de enfrentar o problema da miséria, do desencanto, da desesperança e da subvida que marca milhões de brasileiros ? Não venham me falar de bolsa disso ou bolsa daquilo, pois prefiro as bolsas rodantes das dasputas, pois elas são profissionais!

ONGs? Ótimo, mas cadê elas pra dizerem alto e bom som que tudo que fazem nada vai resolver ? Cadê elas pra juntarem o povo e lutarem pra que tudo que fazem se torne de fato políticas públicas? Pois, ao fim e ao cabo, trata-se de dizer que o que importa é um governo que de fato transforme em prioridade o fim da exclusão social.

Mas, e o MV Bill? Tava me esquecendo dele! Foi lá o negrão na Daslu, lançar seu livro. Escândalo! Como é que pode o MV Bill, rapper, saído lá da favela, sobrevivente, que se apresenta com um cano na cinta, porta-voz dos fudidos “que não podem foder fudido”, aparecer ao lado da dona Eliane sei lá o que, trambiqueira de luxo?

Na hora em que vi a foto do MV Bill sentado com a dona Daslu pousando seu rico braço sobre seu ombro fiquei puto, indignado e não acreditava no que via. Passados os dias e a visceralidade do momento, pensei cá com meus botões:

– E os artistas que beijam a mão de ACM e outros tais, pode? Condenamos eles ao inferno e jogamos no lixo seus CDs?

– E as ONGs que conseguem milhões de multinacionais, pode? Vamos dizer que elas fazem um trabalho maravilhoso e precisam desses financiadores?

– E os partidos ditos de esquerda que ganham milhões “não contabilizados” pode? Vamos votar e eleger seus dirigentes socialistas?

Coerência de quem, cara pálida?

E mais isso e mais aquilo e tudo mais que envolve o problema. O que quero dizer é que cobrar coerência de um cara como o MV Bill, que vai na Daslu lançar o seu livro porque recebe financiamento da dona pra construir sua sede e tocar seu projeto, é exagerado em um país sem coerência alguma daqueles que poderiam tentar dar coerência às suas ações. Ta lá o MV Bill com sua ONG, com grana da Daslu, com sessenta minutos do Fantástico, com o Faustão e tudo mais. Mas tá lá também seu filme dizendo que nada tá sendo feito e que os cadáveres vão se empilhando, e que de alguma forma fazemos de conta que nossa parte estamos fazendo.

Por algum motivo, um dia eu saí dessa. E um monte de maluco que andava comigo não saiu. Às vezes eu penso neles e me parece que tudo foi um sonho. Mas tá aí o MV Bill dizendo que é realidade e que o Alto da Vila Maria de 44 anos atrás é um paraíso perto das quebradas de hoje, seja a Cidade de Deus ou o Capão Redondo ou o Planeta dos Macacos.

Walter Takemoto é educador.

Postado por Lucas Costa às 01:52
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