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O gerúndio político-nacional
Diante dos nossos obtusos olhares, a vergonha tomou forma, criou asas e viu-se livre para voar. Nossa retina não se acostumou a observar o mundo pelo ângulo da vigilância, como se da ação mais simplória viesse à tona o inesperado. Infelizmente ele surgiu e hoje estamos inconformados, perplexos e nos perguntamos se nossa pátria merecia ser ferida pêlos vícios de seres levianos, que se deixaram corromper pelo capital, manchando na lama da corrupção o caráter do nosso Brasil. Caráter este, construído através da força e perseverança de milhões de homens e mulheres que crêem que dias melhores virão.
Ao vagar pelas ruas, vejo estes mesmos cidadãos inocentes, porém pacientes diante desta lamentável situação, acreditarem que alguém intervirá por eles. Pobres analfabetos políticos, diria Bertolt Brecht. A questão é que a política deve ser encarada como algo necessário e principalmente, como uma válvula para que as camadas populares exijam seus direitos, uma vez que tudo gira em torno daqueles que têm posses.
O processo eleitoral de 2006 promete sem dúvida fortes emoções, já que mediante a tantos escândalos, a população terá a obrigação de renovar o cenário político atual. A Constituição garante eleições diretas, logo temos o poder em nossas mãos. Tudo indica uma eleição atípica, já que finalmente uma parcela da população se pôs a ver que ladrões nós elegemos para nos representarem.
Os políticos talvez mal saibam, embora devam ser gratos aos gramáticos por terem criado o gerúndio. Desta forma, o governo continuará "fazendo" suas benfeitorias. Logo não se assustem se o presidente disser que está "trabalhando" arduamente para combater as desigualdades sociais no Brasil, uma vez que a gramática normativa permite está indeterminação de tempo e o trabalho pode não ter término. Por isso, aconselho que não fiquem "esperando" um milagre ou mais uma catástrofe, pois para que aconteça o milagre é preciso que haja organização, seriedade e comprometimento. E para que se lave mais dinheiro, basta vendarmos os olhos e não encararmos o crônico contexto social que nos encontramos.
Aliás, você se lembra em quem votou? Este é mais um problema. Nossa memória política é igual a nossa consciência eleitoral, quase sempre vazia e dotada de complexos e preconceitos.
Na corrida ao Palácio da Alvorada destacam-se o presidente Lula (PT); que lá está, ou pelo menos parece estar, uma vez que se comporta como um joguete nas mãos dos investidores e abre espaço para que outros governem; Geraldo Alckmin (PSDB), braço direito do já falecido Mário Covas e defensor de esferas assistencialistas; Heloísa Helena (PSOL), uma representante popular de fibra e idéias contraditórias; Cristovam Buarque (PDT), que busca na educação, seu antigo ministério no governo Lula, a resposta para as disparidades e para o caos no Brasil, mas que não explica de onde viram os recursos para os tais investimentos; e o pernambucano Luciano Bivar (PSL), que propõe o imposto único, criando apenas uma fonte receptora, o que implicaria em um melhor controle dos cofres públicos.
Em Minas Gerais, parece que Aécio Neves (PSDB) aplicou seu "choque de gestão" também nas mentes daqueles que crêem em déficit zero, mesmo com o governo do Estado na era Itamar Franco tendo decretado pesadas dívidas. Nilmário Miranda (PT) deu o primeiro e o último passo, em falso, ao aliar-se a Newton Cardoso (PMDB), a fim de evitar o inevitável: a reeleição do boêmio tucano Aécio, neto de Tancredo Neves, primeiro presidente civil eleito após a ditadura militar.
Mediante a propostas vazias, restou-lhes o ataque e a certeza de que estão "jogando", "concorrendo", "manipulando" e "tentando" mais uma vez cegar-nos diante de propostas infundadas, sem a mínima chance de vingar. Eles talvez se esqueçam que vivemos em um país de terceiro mundo que necessita mais do que propostas, precisa de viver e se deixar viver, levando à população o que lhe é de direito: educação, saúde, moradia, segurança, emprego e, sobretudo dignidade.
Conscientizarmos de que o Brasil é carente de representantes capazes e que o voto é primordial para que possamos iniciar a reforma política é um passo. O outro é a união definitiva da sociedade em busca do gerenciamento das ações políticas e da diminuição dos tetos salariais políticos, para que nos transformemos em seres politizados, capazes de se defender das investidas de homens como os que lá estão. E assim se nos tornássemos nossos próprios gestores, talvez levaríamos educação ao povo que precisa de conhecimento para vencer e não de políticas que geram conformismo. Precisamos gerar e distribuir de forma igualitária a renda e não de migalhas do farto banque congressista.
E ao invés de ouvirmos que estão "aprovando" determinada lei, façamos nossa obrigação, de votar com consciência e extinguir o gerúndio político e consolidar o imperativo político de igualdade já.

por Lucas Fernandes Alvarenga

Postado por Equipe FINPE Alternativa às 17:07
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